Navego pelas ruas de Jacarepaguá, como sobre o dorso de camelos. A caminho do Anil, após o supermercado, há uma larga calçada com gramado e árvores enormes. Deixei meu filho na escola e passei por lá em uma gloriosa manhã ensolarada. Nada em especial, um dia de semana qualquer, carros e pessoas em sua labuta cotidiana. Foi quando ao passar pela calçada do gramado senti aquilo. Tentarei explicar na medida do possível. Foi uma espécie de golpe, mas na alma, como, imagino eu, é a sensação de morrer. A alma prestes a alçar voo, uma sensação entre o desmaio e a maior lucidez possível, algo de nós partindo e sendo portanto necessária a maior firmeza de espírito para não deixá-lo fugir.
segunda-feira, 21 de março de 2022
sábado, 13 de novembro de 2021
De janelas indiscretas
Nesta tarde era um cheiro de incenso, forte, como defumadores de igreja. Agredia as narinas mas tinha esse efeito colateral de erguer o espírito, e não é possível ficar imune à atmosfera mística que esses cheiros trazem. Levanto os olhos do livro e apuro o olfato, como um bicho, absorvendo as sensações pelo nariz. Vêm junto Santo Expedito e São Sebastião, Santa Luzia e o Caboclo das Sete Encruzilhadas.
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
Ainda sonhos, mar e flores
Senti uma terna emoção e os olhos marejaram de leve quando ouvi Vanessa da Mata na área de serviço. Algum vizinho deixara o som nas alturas. Foi a parte do "sou perigosa/ sou macumbeira" em "Não me deixe só". É que lembrei da velha senhora do meu sonho nesta manhã. Foi a segunda parte do sono; por volta das oito da matina levantei para dar uma mijada e, como não tinha compromisso cedo, pude voltar para o leito. Rápido Morfeu me arrastou novamente para suas profundezas e os castelos oníricos se formaram, feitos de uma argila de modelar que só o inconsciente conhece.
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
O sol, garranchos e cupins
O dia não cessa de amanhecer, o sol é apenas uma estrela da manhã, diz Thoreau. E é muito revigorante sentir o astro neste agosto invernal, ainda que em um céu pálido e desbotado como papel crepom azul-bebê. Debruço-me na janela para ver os prédios e as pessoas e então ajeito minhas plantas, a minha velha pimenteira acossada pelos pulgões. O sol derrama energia; sinto-me como conectado a uma tomada.
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
De solidão e silêncio. E samurais.
Falei da dinastia Yuan no post anterior e senti vontade de ler sobre suas tentativas de invasão ao Japão em fins do século XIII. Deu água, literalmente — o kamikaze, vento divino, destruiu a armada sino-mongólica. Orgulhosos guerreiros do Khan afundando como chumbo, agarrados a tábuas, paus e destroços, pulmões explodindo e roxos de afogamento. Da costa os samurais observam, a salvo dos tufões, prontos para degolar os sobreviventes que baterem nas praias. Katsu!, grita o mestre zen. O país do sol nascente não será vassalo alheio.
sábado, 31 de julho de 2021
O frio de julho e o sábio chinês
Meados do ano, impressiona como os dias passam velozes. A pandemia aumentou a sensação de urgência do tempo. Um ano e meio de semirreclusão, o que não quer dizer em todo caso que tenha sido tempo perdido. A adaptabilidade humana é coisa admirável. Aprendemos a viver com o vírus, na medida do possível, na resiliência obstinada que marca a espécie. E cá estamos neste julho de 2021 da Era Cristã, o ar seco deste inverno rascante maltratando nossas narinas de alérgicos.
sábado, 10 de julho de 2021
Lugares e o rugido do vento
Sinto-me bem nesta tarde de domingo. Toquei uma punheta no chuveiro quente e enquanto me seco sou invadido por uma inexplicável euforia. Penso em um poema de Nanao Sakaki que verto para o português abaixo:
De manhãapós tomar uma ducha fria— que erro! —olho no espelho.
quinta-feira, 3 de junho de 2021
De feras, sereias e assombro
Sonhei com o puma à tarde ou foram os quadrinhos de Western que tenho baixado online, ou ainda as cenas das tundras do Alasca que postei no Facebook? A alma urbana às vezes escapa para longe. Seríamos muito pouca coisa sem toda essa carga imagética que faz a cabeça girar. Não se trata do escapismo de quem não quer enfrentar a realidade dada; mas de entender que essa mesma realidade é fluida e multifacetada e que é um desperdício enorme limitarmos a vida àquilo que conhecemos diretamente. Tenha sonhos, portanto. Leia livros e histórias em quadrinhos. Assista séries, é claro. Tudo aquilo que fala à imaginação, diria Henry Miller.
sábado, 2 de janeiro de 2021
Sociedade de classes e mares agitados
Na sociedade capitalista a importância do "ter" é levada ao paroxismo. Muito já se falou sobre isso e me reporto a Marx na Miséria da filosofia (1847): em nossa época, é mais fácil produzir o supérfluo do que o necessário. É uma cultura de desperdício. De Marx pra cá só piorou, evidentemente. Tempos de obsolescência programada, de produzir para quebrar para então produzir novamente. E comprarmos de novo. O planeta não aguenta esse ritmo. Vai se exaurindo, consumido, chupado até o último suspiro. Não adianta aqui trocar a sanha produtivista capitalista por outra, socialista ou supostamente socialista — a URSS no passado e a China de hoje representam os mesmos padrões ecologicamente deletérios. Pois não se trata aqui de emular o capitalismo e de dar ao produtivismo uma cor "vermelha", e sim de colocar em xeque o próprio produtivismo. Falo aqui portanto na abordagem ecossocialista, a única que permitirá o desabrochar, com toda a pertinência da analogia botânica, da sociedade nova do futuro.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
A lanterna do eremita e o cálice derramado
Não acreditem em quem diga ser possível prever o futuro. O método divinatório, qualquer que seja — cartas, runas, borra de café etc. — permite insights e a liberação das forças criativas do inconsciente. De posse desse substrato compreenderemos mais nosso momento, as circunstâncias que nos cercam e, pronto, cá estamos melhor municiados para enfrentar as contingências da vida.
sábado, 1 de agosto de 2020
De guerra e paz. E a rã no tanque.
Começo o sábado debruçado sobre a "Historia Brittonum", ao menos tenho sua verbete na Wiki aberta aqui. Ainda não é o momento da leitura, que reservarei para o silêncio intimista da madrugada. Costumo fazer isso com os grandes temas que me interessam: deixo-os o dia inteiro maturando na aba do navegador, como um vinho ou um scotch, preparando o clima para a ocasião. Não faz diferença que seja um verbete da Wiki ou uma edição impressa de luxo — basta que aquilo alimente meu espírito. Não só de pão vive o homem etc., preciso me nutrir de leitura assim como de meu pão (Van Gogh).
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Sobre mortos e lembranças
É véspera do dia 31 de outubro, o dia que como se sabe é o Samhain, na raiz do moderno Halloween; ou Calan Gaeaf entre os galeses que me pegaram em sua magia céltica desde que verti para o português seus versos dos túmulos. Isso foi em 2013. Desde então estou enfeitiçado, "não sou mais dono do meu coração", como diz Maiakovsky. Ele, meu coração, está em algum lugar nas costas do Mar Irlandês sob o tremeluzente estandarte de Y Ddraig Goch, o dragão vermelho de Arthur ap Uther. E é, voltemos à data, o dia em que as fronteiras se tornam diáfanas e os mortos podem caminhar novamente junto a nós, viventes.
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
Pensamento soltos
Quatro e meia da manhã e ouço os metais de Fela Kuti ressoarem na cabeça. Mais sutil e concreto é o canto do passsarinho lá fora, até hoje desconheço a espécie mas faz um "fiuiii fiuiii" ritmado sempre a essa hora da madrugada. Conhecemos pouco as aves, males da nossa criação urbana, engaiolada, tecno-cinza e nano-gris. Sou entusiasta da modernidade mas esse fato não é algo que se negue. A meta, entendo eu, deve ser a do espaço sideral sem a perda de contato com o chão, e então me recordo de Maiakóvski em "A propósito disto", capítulo "O amor", sobre o pai ser o Universo e a mãe a Terra — e ninguém menos que isso.
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