Busco as encantarias do Nordeste. Aquele sacerdote em trajes mouros paira sobre minha cabeça; o manto, escarlate, tem bordados em ouro e esmeralda. Usa turbante tal como imame dos Ahl al-Bayt fosse. Nos dedos de rei Salomão, aneis das pedrarias mais diversas – agrada-me o vermelho escuro como vinho, e também o azul cor de mar e, apesar dos rápidos gestos, percebo o amarelo luz de manhã.
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sábado, 10 de dezembro de 2022
segunda-feira, 21 de março de 2022
De capturas da alma
Navego pelas ruas de Jacarepaguá, como sobre o dorso de camelos. A caminho do Anil, após o supermercado, há uma larga calçada com gramado e árvores enormes. Deixei meu filho na escola e passei por lá em uma gloriosa manhã ensolarada. Nada em especial, um dia de semana qualquer, carros e pessoas em sua labuta cotidiana. Foi quando ao passar pela calçada do gramado senti aquilo. Tentarei explicar na medida do possível. Foi uma espécie de golpe, mas na alma, como, imagino eu, é a sensação de morrer. A alma prestes a alçar voo, uma sensação entre o desmaio e a maior lucidez possível, algo de nós partindo e sendo portanto necessária a maior firmeza de espírito para não deixá-lo fugir.
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
O sol, garranchos e cupins
O dia não cessa de amanhecer, o sol é apenas uma estrela da manhã, diz Thoreau. E é muito revigorante sentir o astro neste agosto invernal, ainda que em um céu pálido e desbotado como papel crepom azul-bebê. Debruço-me na janela para ver os prédios e as pessoas e então ajeito minhas plantas, a minha velha pimenteira acossada pelos pulgões. O sol derrama energia; sinto-me como conectado a uma tomada.
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
De solidão e silêncio. E samurais.
Falei da dinastia Yuan no post anterior e senti vontade de ler sobre suas tentativas de invasão ao Japão em fins do século XIII. Deu água, literalmente — o kamikaze, vento divino, destruiu a armada sino-mongólica. Orgulhosos guerreiros do Khan afundando como chumbo, agarrados a tábuas, paus e destroços, pulmões explodindo e roxos de afogamento. Da costa os samurais observam, a salvo dos tufões, prontos para degolar os sobreviventes que baterem nas praias. Katsu!, grita o mestre zen. O país do sol nascente não será vassalo alheio.
sábado, 31 de julho de 2021
O frio de julho e o sábio chinês
Meados do ano, impressiona como os dias passam velozes. A pandemia aumentou a sensação de urgência do tempo. Um ano e meio de semirreclusão, o que não quer dizer em todo caso que tenha sido tempo perdido. A adaptabilidade humana é coisa admirável. Aprendemos a viver com o vírus, na medida do possível, na resiliência obstinada que marca a espécie. E cá estamos neste julho de 2021 da Era Cristã, o ar seco deste inverno rascante maltratando nossas narinas de alérgicos.
sábado, 1 de agosto de 2020
De guerra e paz. E a rã no tanque.
Começo o sábado debruçado sobre a "Historia Brittonum", ao menos tenho sua verbete na Wiki aberta aqui. Ainda não é o momento da leitura, que reservarei para o silêncio intimista da madrugada. Costumo fazer isso com os grandes temas que me interessam: deixo-os o dia inteiro maturando na aba do navegador, como um vinho ou um scotch, preparando o clima para a ocasião. Não faz diferença que seja um verbete da Wiki ou uma edição impressa de luxo — basta que aquilo alimente meu espírito. Não só de pão vive o homem etc., preciso me nutrir de leitura assim como de meu pão (Van Gogh).
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Sobre mortos e lembranças
É véspera do dia 31 de outubro, o dia que como se sabe é o Samhain, na raiz do moderno Halloween; ou Calan Gaeaf entre os galeses que me pegaram em sua magia céltica desde que verti para o português seus versos dos túmulos. Isso foi em 2013. Desde então estou enfeitiçado, "não sou mais dono do meu coração", como diz Maiakovsky. Ele, meu coração, está em algum lugar nas costas do Mar Irlandês sob o tremeluzente estandarte de Y Ddraig Goch, o dragão vermelho de Arthur ap Uther. E é, voltemos à data, o dia em que as fronteiras se tornam diáfanas e os mortos podem caminhar novamente junto a nós, viventes.
terça-feira, 5 de março de 2019
Por que o Iluminismo não foi a era da razão
Inaugurando o blog, traduzo abaixo -fonte ao final- um texto sobre um tema que me é muito caro: as Luzes, das quais, como marxista, sou tributário. O autor sustenta a tese de que o período não foi o de uma apologia à razão fria, ao contrário do que o senso comum deixa transparecer.
A imagem que ilustra o post, utilizada no texto original, é "Un dîner de philosophes" ("Um jantar de filósofos"), por Jean Huber (1772).
Por que o Iluminismo não foi a era da razão
Henry Martyn Lloyd
Do outro lado do Atlântico grupos de intelectuais fizeram uma convocação para a guerra. A cidadela sitiada a ser defendida, afirmam, é a da ciência e da política baseada em fatos e evidências. Esses cavaleiros do progresso -como o psicólogo Steven Pinker e o neurocientista Sam Harris- condenam o aparente ressurgimento da paixão, emoção e superstição na política. Eles dizem que a base da modernidade é a capacidade humana de controlar forças disruptivas de forma racional e com a cabeça fria. O que precisamos é dar um "reboot" no Iluminismo, portanto.
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