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sexta-feira, 12 de maio de 2023

De rascunhos e oceanos


Eu deveria ter escrito isto no final do ano — afinal, tenho anotado aqui nos rascunhos coisas como "Carta do dia - O Sol", "Início do verão - 21 de dezembro" e "Comunismo solar". São ideias que se imbricam, portanto. Sobre o comunismo solar se trata de uma referência a Löwy e seu ecossocialismo, o futuro, tolos chamarão utópico, do pleno aflorar das potencialidades humanas em um planeta ecologicamente restaurado. Não é possível falar em socialismo nestas tumultuosas primeiras décadas do século XXI sem que se lhe grafe em letras verde-primavera.

sábado, 10 de dezembro de 2022

As filhas do rei da Turquia. E sobre liberdade.


Busco as encantarias do Nordeste. Aquele sacerdote em trajes mouros paira sobre minha cabeça; o manto, escarlate, tem bordados em ouro e esmeralda. Usa turbante tal como imame dos Ahl al-Bayt fosse. Nos dedos de rei Salomão, aneis das pedrarias mais diversas – agrada-me o vermelho escuro como vinho, e também o azul cor de mar e, apesar dos rápidos gestos, percebo o amarelo luz de manhã.

sábado, 10 de julho de 2021

Lugares e o rugido do vento


Sinto-me bem nesta tarde de domingo. Toquei uma punheta no chuveiro quente e enquanto me seco sou invadido por uma inexplicável euforia. Penso em um poema de Nanao Sakaki que verto para o português abaixo:
De manhã
após tomar uma ducha fria
— que erro! —
olho no espelho.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Sociedade de classes e mares agitados


Na sociedade capitalista a importância do "ter" é levada ao paroxismo. Muito já se falou sobre isso e me reporto a Marx na Miséria da filosofia (1847): em nossa época, é mais fácil produzir o supérfluo do que o necessário. É uma cultura de desperdício. De Marx pra cá só piorou, evidentemente. Tempos de obsolescência programada, de produzir para quebrar para então produzir novamente. E comprarmos de novo. O planeta não aguenta esse ritmo. Vai se exaurindo, consumido, chupado até o último suspiro. Não adianta aqui trocar a sanha produtivista capitalista por outra, socialista ou supostamente socialista — a URSS no passado e a China de hoje representam os mesmos padrões ecologicamente deletérios. Pois não se trata aqui de emular o capitalismo e de dar ao produtivismo uma cor "vermelha", e sim de colocar em xeque o próprio produtivismo. Falo aqui portanto na abordagem ecossocialista, a única que permitirá o desabrochar, com toda a pertinência da analogia botânica, da sociedade nova do futuro.