Busco as encantarias do Nordeste. Aquele sacerdote em trajes mouros paira sobre minha cabeça; o manto, escarlate, tem bordados em ouro e esmeralda. Usa turbante tal como imame dos Ahl al-Bayt fosse. Nos dedos de rei Salomão, aneis das pedrarias mais diversas – agrada-me o vermelho escuro como vinho, e também o azul cor de mar e, apesar dos rápidos gestos, percebo o amarelo luz de manhã.
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sábado, 10 de dezembro de 2022
terça-feira, 18 de outubro de 2022
De velas e manhãs. E o trânsito das estações.
No Facebook, postei Coração-de-corvo do povo Mandan das Grandes Planícies e sonhei com três espíritos totêmicos. Rostos graves e austeros, algo de incisivo, cada qual coberto de tinta — azul, amarelo e vermelho. Um recado cada um, uma frase, um lembrete, uma lição. Escusado dizer que ao acordar não me lembrava de rigorosamente nenhuma palavra do que me diziam.
segunda-feira, 6 de junho de 2022
Caminhos de prata. E do tempo relativo.
Ao longo do asfalto, gotas de cinza tinta. Parecia um caminho salpicado de prata, como são na imaginação aqueles que levam a castelos de reis ou outros portentos de contos de fadas. Sincronicamente, ao virar a esquina já é o ouro de carambolas amarelas pelo chão. Há uma caramboleira por perto. Não sou exatamente fã da fruta — às vezes trago para casa para fazer suco para meu filho, mas é raro. Porém sempre admirei o formato estrelado e, agora, ao passar pela calçada de carambolas caídas, me sinto transitando por uma via láctea de ouro.
sábado, 13 de novembro de 2021
De janelas indiscretas
Nesta tarde era um cheiro de incenso, forte, como defumadores de igreja. Agredia as narinas mas tinha esse efeito colateral de erguer o espírito, e não é possível ficar imune à atmosfera mística que esses cheiros trazem. Levanto os olhos do livro e apuro o olfato, como um bicho, absorvendo as sensações pelo nariz. Vêm junto Santo Expedito e São Sebastião, Santa Luzia e o Caboclo das Sete Encruzilhadas.
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
Ainda sonhos, mar e flores
Senti uma terna emoção e os olhos marejaram de leve quando ouvi Vanessa da Mata na área de serviço. Algum vizinho deixara o som nas alturas. Foi a parte do "sou perigosa/ sou macumbeira" em "Não me deixe só". É que lembrei da velha senhora do meu sonho nesta manhã. Foi a segunda parte do sono; por volta das oito da matina levantei para dar uma mijada e, como não tinha compromisso cedo, pude voltar para o leito. Rápido Morfeu me arrastou novamente para suas profundezas e os castelos oníricos se formaram, feitos de uma argila de modelar que só o inconsciente conhece.
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
De solidão e silêncio. E samurais.
Falei da dinastia Yuan no post anterior e senti vontade de ler sobre suas tentativas de invasão ao Japão em fins do século XIII. Deu água, literalmente — o kamikaze, vento divino, destruiu a armada sino-mongólica. Orgulhosos guerreiros do Khan afundando como chumbo, agarrados a tábuas, paus e destroços, pulmões explodindo e roxos de afogamento. Da costa os samurais observam, a salvo dos tufões, prontos para degolar os sobreviventes que baterem nas praias. Katsu!, grita o mestre zen. O país do sol nascente não será vassalo alheio.
sábado, 10 de julho de 2021
Lugares e o rugido do vento
Sinto-me bem nesta tarde de domingo. Toquei uma punheta no chuveiro quente e enquanto me seco sou invadido por uma inexplicável euforia. Penso em um poema de Nanao Sakaki que verto para o português abaixo:
De manhãapós tomar uma ducha fria— que erro! —olho no espelho.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
A lanterna do eremita e o cálice derramado
Não acreditem em quem diga ser possível prever o futuro. O método divinatório, qualquer que seja — cartas, runas, borra de café etc. — permite insights e a liberação das forças criativas do inconsciente. De posse desse substrato compreenderemos mais nosso momento, as circunstâncias que nos cercam e, pronto, cá estamos melhor municiados para enfrentar as contingências da vida.
sábado, 1 de agosto de 2020
De guerra e paz. E a rã no tanque.
Começo o sábado debruçado sobre a "Historia Brittonum", ao menos tenho sua verbete na Wiki aberta aqui. Ainda não é o momento da leitura, que reservarei para o silêncio intimista da madrugada. Costumo fazer isso com os grandes temas que me interessam: deixo-os o dia inteiro maturando na aba do navegador, como um vinho ou um scotch, preparando o clima para a ocasião. Não faz diferença que seja um verbete da Wiki ou uma edição impressa de luxo — basta que aquilo alimente meu espírito. Não só de pão vive o homem etc., preciso me nutrir de leitura assim como de meu pão (Van Gogh).
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Sobre mortos e lembranças
É véspera do dia 31 de outubro, o dia que como se sabe é o Samhain, na raiz do moderno Halloween; ou Calan Gaeaf entre os galeses que me pegaram em sua magia céltica desde que verti para o português seus versos dos túmulos. Isso foi em 2013. Desde então estou enfeitiçado, "não sou mais dono do meu coração", como diz Maiakovsky. Ele, meu coração, está em algum lugar nas costas do Mar Irlandês sob o tremeluzente estandarte de Y Ddraig Goch, o dragão vermelho de Arthur ap Uther. E é, voltemos à data, o dia em que as fronteiras se tornam diáfanas e os mortos podem caminhar novamente junto a nós, viventes.
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