sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Pensamento soltos


Quatro e meia da manhã e ouço os metais de Fela Kuti ressoarem na cabeça. Mais sutil e concreto é o canto do passsarinho lá fora, até hoje desconheço a espécie mas faz um "fiuiii fiuiii" ritmado sempre a essa hora da madrugada. Conhecemos pouco as aves, males da nossa criação urbana, engaiolada, tecno-cinza e nano-gris. Sou entusiasta da modernidade mas esse fato não é algo que se negue. A meta, entendo eu, deve ser a do espaço sideral sem a perda de contato com o chão, e então me recordo de Maiakóvski em "A propósito disto", capítulo "O amor", sobre o pai ser o Universo e a mãe a Terra —  e ninguém menos que isso.

sábado, 1 de junho de 2019

De sonhos e poemas


Há algum tempo, sobretudo desde que meu filho nasceu, durmo pouco, algo entre quatro a cinco horas por noite. Um médico decerto teria arrepios com isso -e obviamente falo como leigo- mas dormir me parece algo como uma perda de tempo, um período de inatividade por horas (até oito se formos seguir a recomendação à risca!) que poderia estar sendo melhor aproveitado para o lazer, a leitura, o sexo etc. Eu diria mesmo -reitero que sou apenas um diletante- que tais horas de sono são péssimas do ponto de vista evolutivo, haja vista a vulnerabilidade diante de predadores e o desperdício de um tempo que melhor seria usado na busca de alimento. Como quer que seja, são demandas fisiológicas. Rendamo-nos a elas, pois, e extraiamos o que vem junto com o sono: o sonho. Trago à baila aqui o poema de Leminski: "A vocês, eu deixo o sono./ O sonho, não./ Esse, eu mesmo carrego".

terça-feira, 26 de março de 2019

Faroeste dos cínicos


O carinho que nutro pelo gênero western remonta a diversos momentos da pré-adolescência: comprei uma "Tex" na banca da esquina da Barata Ribeiro com Santa Clara para ler na viagem que faríamos a Aracaju, terra da família materna. Com a acessibilidade dos voos domésticos hoje em dia parece surreal se deslocar do Rio de Janeiro ao Nordeste por ônibus, de dia e meio a dois na estrada, mas era comum na época. Haja chão, portanto, e eis-nos munidos de gibis diversos para suportar a monotonia do trajeto. A viagem em si era um cenário de "Tex", Arizona ou Colorado remoto, mato, subidas e descidas, terra. E enquanto o ônibus rolava pela poeira da BR, Tex Willer era emboscado pelo astuto apache. Ao término da viagem Aracaju também era em si, é claro, um Oeste distante para um menino da zona sul do Rio de Janeiro, já às portas do semi-árido nordestino e com suas ruas de chão batido, início dos anos 90.

terça-feira, 5 de março de 2019

Por que o Iluminismo não foi a era da razão



Inaugurando o blog, traduzo abaixo -fonte ao final- um texto sobre um tema que me é muito caro: as Luzes, das quais, como marxista, sou tributário. O autor sustenta a tese de que o período não foi o de uma apologia à razão fria, ao contrário do que o senso comum deixa transparecer.

A imagem que ilustra o post, utilizada no texto original, é "Un dîner de philosophes" ("Um jantar de filósofos"), por Jean Huber (1772).

Por que o Iluminismo não foi a era da razão

Henry Martyn Lloyd

Do outro lado do Atlântico grupos de intelectuais fizeram uma convocação para a guerra. A cidadela sitiada a ser defendida, afirmam, é a da ciência e da política baseada em fatos e evidências. Esses cavaleiros do progresso -como o psicólogo Steven Pinker e o neurocientista Sam Harris- condenam o aparente ressurgimento da paixão, emoção e superstição na política. Eles dizem que a base da modernidade é a capacidade humana de controlar forças disruptivas de forma racional e com a cabeça fria. O que precisamos é dar um "reboot" no Iluminismo, portanto.